15 de fevereiro de 2011

Um estalo de realidade

Que a crise está aí, não há dúvidas. Todos a sentimos. Uns mais que outros, mas lá vamos levando a vida da melhor forma. Mas ontem senti como se tivesse levado uma lambada da realidade. Um contacto mais directo com as vítimas reais da crise.

Na avenida mais prestigiada da capital do país, Avenida da Liberdade, estão localizadas lojas como Prada, Louis Vitton, Hugo Boss, Lowe, entre outras, mas também muitos sem abrigo.

Esta bonita avenida, por muitos considerada a Champs-Élysées portuguesa, convive com estas duas realidades: pobreza extrema e luxo.

Ontem, quando me dirigia a um laboratório que lá existe, passei por um local onde estava uma caixa de cartão aberta, com uma mala por cima, e logo à minha frente estava um ou dois rapazes com várias malas. Umas 5, pelo menos. Lembrei-me de pensar que deveriam ser estrangeiros e, como não deveriam saber que a caixa de cartão estendida era a cama de um sem-abrigo, tinham lá posto aquela mala para ficar protegida da chuva.

Um pouco mais à frente, estavam dois homens, com o ar mais normal deste mundo, a conversas, e ouvi um dizer: Eh pá, sabes que a lei da rua é cada um por si. Foi neste momento que levei o estalo da realidade. Ali estavam 2 homens, com bom ar, que não eram drogados, nem alcoólicos, com um discurso coerente, e que viviam na rua.

À saída continuavam a falar, sobre a assistente social de um dele. Voltei a passar pelo rapaz das malas, que afinal era só um. Naquelas 5 malas deviam estar todos os seus bens e roupa. Este já tinha uma barba meia-comprida e rasta, mas aceitável, por ser jovem. Mas os outros dois, não!

Fez-me pensar como poderia ser eu, naquela situação. Num mês estamos bem, para 2 ou 3 meses depois, pelas circunstâncias da vida, perdermos tudo e nos vermos na rua.

Mas, se ficamos sem nada, não teremos amigos ou familiares que nos dêem a mão? Nem que de forma temporária? Alguns sim, mas estes, pelos visto, não. Ou então o orgulho não os permite pedir ajuda e, apesar de continuarem a ir trabalhar, não têm um tecto sobre a cabeça.

Para "ajudar" a este chamamento à realidade, hoje as notícias falavam de como as pessoas pedem fiado... Às farmácias.

Como dizem na RFM: Já agora... Vale a pena pensar nisto.

1 comentário:

Cindy disse...

Dói só de pensar. Quem tem amigos e família e saber pedida ajuda quando precisa, tem tudo.
Beijoca